segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Entrevista com o escritor Gustavo Diógenes no Ligados FM

LINK ORIGINAL: AQUI.

Saudações, leitores, tudo bem com vocês? Gustavo Diógenes tem apenas dezoito anos e já desbrava a ficção cientifica em terras potiguares, com o seu livro de estréia Acáci – Mundo 17. A obra foi prefaciada por ninguém menos que o poeta Sanderson Negreiros, que o aclamou como “Pequeno Gênio”. Autor independente, reside em Natal-RN. 

Para mais detalhes a respeito de Acáci, sugiro que não deixem de ler a resenha feita pelo André Marinho em sua coluna “Resenha Crítica”, também pelo Ligados FM. 

O autor Gustavo Diógenes

Ligados: Como surgiu a ideia do livro Acáci – Mundo 17? 

Gustavo Diógenes: Em 2009 comecei a obter uma noção de quem eu era, como pessoa. A escrita foi a maneira que eu encontrei para refletir sobre o assunto e deixar uma marca concreta, reconhecível, do meu raciocínio. 
Escrever, para mim, se tornou algo semelhante a tirar uma foto numa sala escura. Durante a fração de segundo que durava o flash eu conseguia ver o que havia nela, e a foto me permitia recordá-la e examiná-la com cuidado, mais adiante. 
Acáci surgiu a partir de muitas "fotos", contos, e que lentamente juntei até criar algo que pudesse "se manter" sozinho como uma obra. Quando senti que estava completa, a declarei finalizada. 

Ligados: Há quando tempo você está engajado na Literatura? Poderia nos contar como tudo começou? 

Gustavo Diógenes: Como leitor, estou envolvido desde que me conheço como pessoa. Livros sempre foram muito presentes na minha vida, e sempre fui motivado a ler. 
Comecei com leituras simples e, ao longo dos anos, comecei a apreciar obras que incitavam discussões mais profundas. Existenciais, psicológicas, sociológicas e científicas. Também foram muito importantes as aulas de Literatura que tive, desde jovem. Nelas aprendi a enxergar as mensagens e detalhes nas histórias. 
Como escritor me engajei em torno de 2009, quando comecei a escrever com dedicação e disciplina. Antes disso já tinha escrito algumas histórias sem muita profundidade, como experimentos, desde 2007. As abandonei, sem remorsos, em favor de Acáci.

Ligados: Como jovem autor, certamente você teve que enfrentar inúmeros obstáculos e dificuldades. Como conseguiu publicar o livro? 

Gustavo Diógenes: Eu tive a felicidade de ter ao meu redor muitas pessoas me incentivando. Minha família, que nunca parou de me apoiar e criticar meus textos de maneira construtiva, meus professores, que sempre ajudaram com os conhecimentos que possuíam, amigos e amigas, que sempre estavam dispostos a opinar sobre meus rascunhos, e muitas pessoas que passaram a apostar em mim após lerem meus manuscritos. 
Chegar à publicação foi difícil e cansativo, e houve momentos em que pensei que não conseguiria fazer um livro de qualidade. Mas, com o apoio de tantas pessoas que confiaram em mim, eu pude me concentrar na qualidade do livro. Pude me dedicar ao máximo. Assim, a publicação foi possível. 

Ligados: Que tipo de obra te atrai como leitor? 

Gustavo Diógenes: Obras que contenham reflexões e uma psicologia sólida em suas personagens. Quando leio, meu objetivo é aprender algo com a obra e integrá-la à minha vida. Noutras palavras, aprender com os pensamentos de outra pessoa. 
Nem é muito importante, na escolha das minhas leituras, se concordo com as ideias colocadas, se os personagens me atraem ou se a história é ficção ou baseada em fatos reais. O que quero é me colocar no lugar de outra pessoa e ver pelos seus olhos, aprender com seus fracassos e sucessos. 
Se o livro possibilitar isso, provavelmente me agradará. Se você se permitir, é sempre possível aprender algo com alguém e crescer com isso. Portanto, não há muitas temáticas que não me atraem.

Ligados: Não é fácil ser um escritor no Brasil, e principalmente no Nordeste brasileiro. Você acha que a nossa região possui espaço para a Literatura? 

Gustavo Diógenes: É inquestionável que o público leitor no Nordeste, e no Brasil, não é muito grande se comparado com o de outros países, e já foi provado que expandi-lo não é uma tarefa pequena. Eu já fui a muitos lançamentos de livros, e pude presenciar de perto a tristeza que é ver poucas pessoas num momento importante como esse. 
Ou seja, eu presenciei a fraqueza do mercado de Natal. Mas, depois de Acáci, eu estou um pouco esperançoso. A resposta do público, tanto em vendas quanto na reação dos leitores que conheci, foi muito boa. Isso me faz pensar que, embora o espaço não seja muito grande, talvez ele seja possível de explorar de maneira minimamente satisfatória. 
Isso sem falar que a globalização permite, pela Internet e outros meios, que publicações tenham um marketing mais direcionado ao público que lhes interessa. Hoje é uma opção não publicar em formato físico, embora ainda incomum no Brasil. Essas alternativas talvez tragam benefícios para a Literatura brasileira, penso. 

Ligados: Comente um pouco sobre o Acáci – Mundo 17. 

Gustavo Diógenes: De maneira sucinta, Acáci - Mundo 17 é a história de um planeta e as pessoas que o habitaram. A narrativa se inicia com as origens do planeta e da vida, e segue até o seu "fim." 
Por ser um planeta diferente do nosso, não há humanos. Mas as espécies e pessoas presentes em Acáci, mesmo sendo tão distintas fisiologicamente e psicologicamente, não deixam de expressar conflitos e dúvidas semelhantes às nossas. 
Ou seja, por meio do diferente tentei retratar as semelhanças que nós humanos temos, muito embora não as enxerguemos normalmente.

Ligados: O seu livro tem várias histórias relativamente independentes que mantêm uma relação de unidade com o todo. Como foi o processo de escrita de Acáci? Você já escreveu cada um dos contos tendo em mente uni-los em um só universo? 

Gustavo Diógenes: A princípio eu escrevia os contos sem muita preocupação com a união. Apenas me importava com a qualidade e não impus grandes limitações nos recursos que usei. Quando eu tinha um número considerável de contos concluídos, e julguei que podia usá-los como uma fundação para algo maior, escolhi os melhores e assim "nasceu" Acáci. 
A partir desse momento comecei a dedicar um maior foco à história do planeta como um todo, e delineei alguns princípios que queria seguir. Por exemplo, decidi que não queria colocar um "vilão" em nenhuma das histórias. Embora houvesse antagonistas e protagonistas, nenhum poderia ser considerado de fato "bom" ou "malvado." 
Também tomei a decisão de não tentar fornecer respostas a certos questionamentos, especialmente os de cunho religioso ou espiritual. Trabalhei de forma que muitos eventos na história podem ser compreendidos tanto de uma maneira científica quanto espiritual, para que qualquer leitor, independente de seu posicionamento no assunto, se sentisse respeitado e pudesse tirar alguma coisa da leitura. 
Depois desses princípios, modifiquei alguns detalhes dos contos originais para se encaixarem um no outro de maneira mais fluída. Solidifiquei as espécies presentes em Acáci e comecei a trabalhar no desenvolvimento dos temas centrais. 
A partir do Terceiro Ato os acontecimentos começam a se interconectar, construindo lentamente o final da história, que deveria seguir um último princípio; deveria ser um fim completo por si só, sem a necessidade de, digamos, uma continuação direta. 
Conforme o final se aproxima na narrativa, fica cada vez mais fácil identificar quem são os protagonistas e antagonistas. Comecei a escrever pensando no universo, e não no local. Torna-se notável quem são os protagonistas e antagonistas da história. 

Ligados: O escritor Isaac Asimov, autor de inúmeras obras importantes de ficção científica, escreveu um livro que também é dividido em atos, assim como 'Acáci', chamado' Eu, Robô'. A sua obra sofreu alguma influência do autor russo?

Gustavo Diógenes: Fui influenciado por Asimov, mas não pela obra "Eu, Robô." Embora eu possua um exemplar, não o li ainda. 
A obra de Asimov que me marcou mais profundamente foi a Trilogia Fundação. Eu a li quando estava próximo de terminar Acáci. Soube dela depois de ler uma das coletâneas de contos organizada por Asimov, e como a proposta de contar a história de um "planeta", Fundação me lembrou da minha própria obra, e comecei a lê-la.
A Trilogia Fundação me fez refletir sobre como eu poderia contar a história de uma civilização. Mas, como a li muito próximo de terminar a escrita do livro, a influência foi leve e somente presente em uma parte não muito grande, próxima do fim.
Mas houve uma outra influência de Asimov, mais inicial, fácil de perceber, mas, na minha opinião, menos importante. Foi a maneira favorável como coloquei robôs e inteligências artificiais em Acáci, especialmente no primeiro conto. Mas não quero me aprofundar muito nesse assunto, já que pode tirar um pouco da surpresa e do prazer da descoberta em certos contos.

Ligados: Que outros autores te influenciam? 

Gustavo Diógenes: Até a conclusão de Acáci tive muitas influências de José Saramago, Italo Calvino, Machado de Assis, Sartre, Graciliano Ramos, Dostoievsky, Michael Frayn, Aldous Huxley e Oliver Sacks. Mas, desde a publicação, já acumulei outras, especialmente Sanderson Negreiros, James Joyce, Clarice Lispector e Toni Morrison. 

Ligados: Já pensa em outros trabalhos? 

Gustavo Diógenes: Eu tenho uma ideia para um próximo livro, mas vejo que esse projeto exigirá muito tempo e esforço meu. Como estou estudando para o Vestibular, tomei a decisão de iniciá-lo só após ser aprovado em Medicina. 
Ocasionalmente, em um momento de descanso, escrevo uma coisinha ou outra para não enferrujar, não relacionadas a esse projeto. Mas não tenho intenção de publicar esses trabalhos pequenos.

Ligados: Você falou que abandonou diversos textos em favor de Acáci, e que atualmente permanece escrevendo. Poderia nos falar um pouco sobre eles, de maneira geral?

Gustavo Diógenes: Meus textos anteriores eram, de maneira geral, comédias com um pouco de crítica social. Embora agradassem aos que os liam, não me satisfaziam como pessoa. Eu não os sentia como algo valioso para mim, que servisse para passar uma mensagem que eu conhecesse bem e julgasse importante. Não me via, como pessoa, naqueles textos.
Abandonei esse estilo quando comecei a estudar e compreender certos conceitos de filosofia e psicologia. Encontrei um estilo mais legítimo comigo mesmo.
Os meus textos recentes, após Acáci, não tem nada de realmente bom ou incrível. Preciso me dedicar muito a uma história para que seja boa, portanto não posso fazê-lo enquanto estudo para o Vestibular. O que escrevo atualmente são esquemas ou explorações rudimentares sobre ideias, conceitos, personagens ou técnicas que quero explorar no futuro. Nenhum deles cresceu a ponto de se tornar uma história de fato. Os escrevo, principalmente, para não perder a prática e guardar ideias para o futuro, sem me importar com qualidade. 

Ligados: Gostaria de deixar algumas dicas para quem está se iniciando na Literatura? 

Gustavo Diógenes: Seja sincero no que você escreve e fale sobre o que você julga importante. Não tenha medo de expor suas fraquezas pessoais ou de descobrir coisas que não gostaria de descobrir. Tenha um compromisso com a sua verdade pessoal. 
Mas lembre-se que também é importante ter humildade e reconhecer quando você não conhece bem o assunto. Nesse caso, a solução é pesquisar e estudar. Não se sinta intimidado pelo desconhecido. Se avaliarmos com cautela, a realidade é que não sabemos quase nada sobre o mundo ao nosso redor. O desconhecido é uma constante nas nossas vidas. 
E, talvez o mais importante, cada pessoa escreve e pensa de sua própria maneira. Talvez, para você, seguir esse meu conselho não dê certo. Depende de qual seu objetivo. Então, não se preocupe muito com conselhos de escritores. Apenas faça.

Links com o seu material:
Como adquirir sua obra: O livro pode ser adquirido na Livraria Siciliano, Nobel ou Potylivros (Natal-RN), ou pelo site da Livraria Cultura.

Ligados: Considerações finais. 

Gustavo Diógenes: No site do livro está disponível, gratuitamente, dois capítulos da história. Interessados que estejam em dúvida quanto à qualidade ou como ele é podem tirar suas dúvidas ao lê-los. E preciso agradecer ao Ligados FM pela chance de ser entrevistado.


Autor: Thiago Jefferson - Colaborador: André Marinho - Criação: 20/04/2012 - Objetivo: www.ligadosfm.com

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